domingo, 21 de junho de 2009

Maria mulambo x Exu Veludo!


Maria Mulambo


Foi no início do século XIX, pelos anos de 1818, época em que o Brasil caminhava para a independência de Portugal quando ainda mantinha no estilo de vida os costumes de colónia submissa, explorada, oprimida. Foi nesse tempo que nasceu em Alagoas, a filha dos Manhães, respeitada família de fazendeiros que viviam de criar gado na região próxima ao então vilarejo de Penedo.Maria Rosa da Conceição – era o seu nome – cresceu criada sob os arraigados moldes educacionais da ocasião. Quando moça feita o Brasil já se dizia independente: ela não era. Tinha nas mãos do pai o seu destino selado, como acontecia a tantos outros milhares de moças. Vigência comum eram os pactos de casamento, não entre os namorados, mas entre os que viam, nesse expediente, a forma de unir família, as consideradas poderosas e tradicionais, visando só interesses comerciais, territoriais e até políticos. Maria Rosa da Conceição não fugiria a esse destino quando, aos 19 anos de idade, foi prometida aos Cardins, na pessoa de Vicente, o filho.Comum também parecia “o outro lado” dessa história. Maria Rosa, claro, não amava Vicente. Era Luciano, capataz da fazenda dos Manhães, o dono de seu coração, um viúvo, sem filhos, com quase o dobro de idade da moça. Empregado dedicado, servia a família. Luciano era homem de um carácter inquestionável, dote que certamente não seria considerado pelo coronel Manhães, caso o capataz propusesse, oficialmente, casar com a filha do fazendeiro. Mas Luciano e Maria Rosa, fora do tempo e do espaço, estavam perdidamente apaixonados.Vivendo um romance clandestino, porém verdadeiro, viam aproximar – se o funesto dia do combinado casamento de Rosa com Vicente. O noivado de seis meses já se tinha expirado. A cada dia que passava menor eram as esperanças de solução. Em Junho do ano de 1837, três meses antes da data marcada para a cerimónia nupcial, Maria Rosa e Luciano apelaram para única saída que lhes parecia possível – a fuga – e fugiram para as bandas de Pernambuco.Essa foi a saída possível, mas não, honrosa, não para as famílias ofendidas nem para os costumes do povo. O escândalo ganhou fazendas, roçados, estradas e os sertões, desbravados pelos dois irmãos de Maria Rosa na tentativa de reave-la e castigar um empregado que para eles se mostrara, agora, indigno de confiança, alem de detestável sedutor. Também para os Cardins a humilhação era sem precedentes! Quanto a Maria Rosa, julgavam os Cardins que ela não havia recebido dos pais a devida educação, tanto que agira de maneira tão afrontosa quanto imoral. Vai daí que as duas famílias cortaram relações, unido – se apenas no firme propósito de encontrar e punir Luciano.Durante três anos e seis meses, deu – se perseguição implacável e sem tréguas ao casal que, longe de fúria e do desejo de vingança dos seus e já com uma filha, encontrara nas terras do Coronel Aurino de Moura o seu recanto de felicidade – e onde, com a mesma dedicação, peculiar a seu carácter, Luciano também trabalhava como capataz.Numa tarde quente de Dezembro de 1840, quando despreocupado tratava no curral da fazenda, de um animal ferido, um bando cercou o local. Eram dois líderes brancos, negros, escravos, farejadores e capangas de aluguel. Sem qualquer explicação, mataram o animal a tiros e Luciano a facadas. Maria Rosa que, em casa, cuidava da filha, foi levada desacordada de volta a cidade de Penedo.Voltar para casa tinha que enfrentar a humilhação. Após cuspir–lhe no resto, o pai expulsou–a, orgulho ferido e ouvidos fechados aos apelos dos dois filhos e da esposa, mãe sofrendo a reconhecer que a filha merecia castigo, mas, não, a renegarão.Maria Rosa julgou que recorrer ao abrigo de parentes poderia amenizar o sofrimento da sua filha. Com ela voltou a Pernambuco e, na cidade de Olinda, apelou para seus tios que, nem por isso, a trataram como sobrinha. Pelo contrário, sua condição de dependente e desvalida fez de Maria Rosa uma serviçal da família, a suportar, pelo bem da filha, novas humilhações. E Maria Rosa fugiu outra vez. Agora, sozinha. Seu amor, sequer estima ou consolo. Perdera tudo o que de mais importante e valioso tivera, prova carnal e espiritual do único amor de sua vida. Partiu para o caminho que, também desta vez, lhe parecia a única e desesperada solução possível: a prostituição.Assim foi tocando seus dias de amargura no falso esplendor da noite boêmia. Sem demora, sua saúde foi sendo minada pela tuberculose e pelas doenças venéreas. Mais uma vez passou a ser repudiava até pelas colegas da profissão chamada de “vida fácil”. Passou, então, a pedir esmolas pelas ruas. Nas suas andanças de extrema penúria, ficou dois anos em Recife, seguindo depois de cidade em cidade até chegar, de volta, à terra natal.Quem peregrinava, então, pelas ruas de Penedo não era a bela jovem de outrora, mas uma mulher magra, precocemente envelhecida, abatida, marcada, dilacerada pelo sofrimento do corpo e da alma. Irreconhecível, foi logo “batizada” pelo escárnio popular como MARIA MOLAMBO. Encontram – na assim os dois irmãos, levaram – na para a fazenda distante algumas léguas da cidade e lhe deram a notícia da morte dos pais e da sua inclusão na herança dos Manhães, graças à intervenção da mãe, a ultima a falecer.Maria Rosa recebeu dos irmãos, bem se diga, toda a assistência de que necessitava em razão da sua doença. Conseguiu, por isso, recuperar parte da saúde e dar início a uma nova vida, agora dedicada à comunidade, ajudando os carentes (que não eram poucos) abandonados e desabrigados, crianças, mulheres e idosos. Sua parte na herança ela destinou a esse trabalho anónimo e a um asilo já existente em Maceió, onde passou servindo todo o seu tempo de vigília.Maria Rosa da Conceição faleceu em 1857. Recebida no plano astral por muitos conhecidos e parentes, àqueles a quem havia beneficiado em sua vida terrena continuou a ser, agora carinhosamente, chamada de Maria Molambo.


Exu Veludo

É comum a lembrança sempre da última encarnação, num espírito caído e renascido das trevas. Mas seria impossível contar esta história sem lembrar de duas últimas reencarnações... Vamos chamá-lo de Veludo, desde já, pois não fui autorizada a revelar sua verdadeira identidade. Ocupava um dos mais altos postos entre os soldados de Roma, tinha trinta anos quando presenciou a Paixão e Morte de Cristo. Pena? Quase nenhuma, tinha um ódio sem razão que crescia a cada dia do povo judeu. Não se abalou com a comoção e nem com o sofrimento do Inocente.Durante vários anos continuou a perseguição implacável aos cristãos, matava por prazer, sentia o gosto do sangue em sua boca e isto lhe fazia chegar ao ápice da glória. Morreu aos setenta e cinco anos, sozinho e leproso. O corpo totalmente deformado, mas a mente sempre perversa. Ficou por muitos séculos, pagando em outras esferas, seus débitos aqui contraídos. Sofreu muito, se redimiu e por volta de 1900 teve a oportunidade de reencarnar na Alemanha, filho de um Oficial do Exército e de uma dona de casa. Veludo sempre foi muito calado e tímido, extremamente inteligente, tinha uma paixão por armas de fogo, confeccionava-as com pedaços de madeira, galhos de árvores e depois com pedaços retorcidos de metal. Passava horas admirando as antigas armas do pai. Assim que pode se alistou no Exército, era apaixonado por isto. Se tornou um dos mais fiéis e dedicados membros da Corporação. Seu comportamento agressivo foi se aflorando. Matava animais com muita vontade, seus olhos brilhavam de prazer. Estoura a II Guerra Mundial. Veludo, agraciado por seu comportamento exemplar torna-se o homem de confiança de Adolf Hitler. Estava casado há quatro anos e tinha três filhos. A partir deste momento, a violência e a revolta contra os judeus explodiram na mente do soldado. Cometeu todas as espécies de barbárie.. Praticava tiro ao alvo da janela de seu quarto com crianças e mulheres judias presas nos campos de concentração. Estourava miolos de pais na presença de filhos, mulheres na presença de maridos e sentia o prazer de matar crescer a cada dia. Vibrava com cada vítima que chorava, esperneava e implorava pela vida. Até que entre as mulheres que iriam para a câmara de gás, um par de olhos muito azuis, chamaram sua atenção. Era uma judia russa que estava prestes a morrer. Sem conseguir explicar o porque, Veludo se apaixonou. E se odiou por isto, amava e odiava com a mesma intensidade. Ele simplesmente não conseguia ser bom. Separou a moça nua das outras e levou-a para seus aposentos. O amor era violento, selvagem, misturava-se com o ódio que sentia por aquela mulher ser judia. Por dez dias, alegando estar adoentado, recolheu-se com a moça judia. Quanto mais a amava, mais seu ódio crescia. Seviciou, abusou, e fez com que a moça sofresse toda a sorte de humilhações, até que a matou. Corroia-se de amor, de ódio e de remorso. Ficou mais violento mais amargo e mais cruel. Com o fim da II Guerra os militares alemães foram perseguidos e capturados. Veludo conseguiu fugir, pediu ajuda a sua esposa que o escondeu em uma velha casa da família. Informada das atrocidades praticadas pelo marido e da traição, cega de ciúme entregou-o aos soldados inimigos. Juntamente com outros oficiais alemães, foi colocado em um paredão e recebeu vários tiros, depois foi jogado em uma vala muito funda, porém não morreu imediatamente, ficou muitos dias, coberto com os outros mortos, se asfixiando aos poucos, quanto mais força fazia para respirar, mais sentia a podridão humana, o sangue fétido e o cheiro de morte. Morreu. A sensação que tinha era que se afogava no lodo, que cheirava forte, e quase o impedia de respirar. Bem...Este sofrimento na esfera mais negra da existência vamos deixar para uma outra parte da história. Passado mais de quarenta anos, Veludo foi resgatado de seu sofrimento por Sr. Ogum Rompe Mato e trazido para trabalhar na casa do Pai Três Cachoeiras. Iria incorporar em uma médium que entraria em breve na corrente. Desde 1992, Exu Veludo presta serviço à Luz no Terreiro de Umbanda Caboclo Três Cachoeiras e Mestre Jesus. Hoje totalmente transformado coloca a caridade acima de qualquer obstáculo e trabalha muito. Já pertence a Ordem dos Cavalheiros mas não quer deixar a casa que tanto lhe ajudou e que tanto ama e a médium a quem devota tanta admiração. Por alguns meses sua ex-esposa, trabalhou como Exu Mulher na mesma casa, incorporando na mesma médium, veio se desculpar por ter entregado seu marido, levada pelo ciúme. Conseguiu seu perdão e hoje está em outra esfera astral praticando também a caridade. Ao oficial alemão que viveu e compactuou com um dos momentos mais negros e sofridos da História Mundial foram atribuídas mais de mil mortes. Sendo a maioria crianças, mulheres e idosos. Todos judeus. Texto escrito por Dagmar Hernandes. História contada pelo Exú Veludo.